Ao mesmo tempo, eu sinto como se a coisa que eu mais me orgulhasse de ter feito nesses últimos tempos todos fosse justamente isso. O registro que eu tenho deixado encadernado e que digito em tinta preta. Que eu deixo guardado o tempo inteiro, e que escrevo de vez em quando. Porque eu sinto que é esse o legado que esse meu último ano inteiro deixou para me lembrar. Porque sou inteiramente eu, e as páginas são tão confusas e sem nexo quanto eu nesses últimos tempos. Porque eu estou há muito tempo confuso e sem nexo, e ter algo que me traduz me deixa no mínimo um pouco mais compreendido, mesmo que quem me compreenda (ou não) seja, afinal de contas, eu mesmo.
Mas eu tenho resistido à tentação. Porque eu sei que não vai adiantar nem vai me redimir em nada, e porque eu sei que só vale a pena escrever sobre o que for quando for sincero, e quando for sincera a vontade de escrever. Tenho tentado colocar pra fora tudo o que eu sinto de outras formas, mesmo que essas eu saiba que são fracas, e que correm o risco de serem esquecidas ao longo do tempo. Porque a mente humana é fraca e esquece, mas às vezes as coisas não são feitas realmente para serem lembradas. Por que nem tudo dá pra guardar num potinho e levar consigo pelo resto da vida. Ás vezes é melhor que as deixemos no lugar onde surgiram, e seguir em frente mesmo assim.
E eu senti, no último dia ensolarado que teve essa certeza. Que não importa o que aconteceu depois, nem se tudo o que houve foi documentado e expresso. Porque seguimos todos numa única fileira de encontro ao mesmo destino, e o que já aconteceu vai ficar pra sempre. Mesmo que as promessas sejam quebradas, mesmo que as expectativas desçam ralo abaixo. Qualquer coisa que aconteceu vai ficar pra sempre, e se a mente humana é fraca demais pra lembrar, estará registrado pra sempre no universo. Nas estrelas. No destino do que já passou mas se repete ainda assim. Porque é eterno e é efémero, e é algo que é impossível de ser mudado. E no meio de todos os meus furacões, essa é uma das poucas coisas que eu consigo ter certeza, porque eu senti. Porque a vida é como uma barra de download em movimento uniforme, e nada disso é em vão.
Mesmo que eu ainda não esteja pronto para acreditar plenamente nisso.
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